Curiosamente, este é o título do texto que Manuel António Pina escreveu para o JN a 3 de Janeiro do ano passado. Curiosamente não apenas pela ligação ao post de baixo mas também ao filme que estreia esta quinta-feira, “Fados”, de Carlos Saura. Curiosamente, porque apesar do meu ódio de estimação à música que o filme chama de “portuguesa” - será, tanto quanto o flamenco é a música espanhola! - fiquei com vontade de o ver.
Curiosamente, finalmente, porque a crise é um conceito estranho, como convém lembrar. A Câmara de Lisboa decidiu contemplar com 1,21 milhões de euros um filme sobre o fado, do realizador espanhol Carlos Saura. Mais IVA, o que significa mais qualquer coisa como 250 mil euros. E mais “apoio logístico” e “espaço publicitário”. A Oposição (PS, CDU e CDS), que, primeiro, se opôs, acabou por viabilizar o “negócio” abstendo-se, como se a ideia tivesse funcionado como a “Coca Cola” de Pessoa primeiro estranhou-se, depois entranhou-se
Isto em Portugal e no final do ano da graça (digamos assim) de 2005, em que de todos os lados se repetiu que “os portugueses têm de fazer sacrifícios”. Sorte de Saura, ser espanhol e não português. Porque, para os portugueses, o Governo anunciou na mesma altura uma redução de 45% do orçamento do Instituto das Artes para os apoios de 2006, ou seja, menos 1,3 milhões de euros (quase tanto quanto custará o apoio ao filme de Saura).
Há uns anos, li, numa parede de Berlim, uma inscrição onde, ao grito “punk” de “No future”, alguém acrescentara “aber mit Sahne, bitte ”, que é como quem diz “No future, mas ao menos com “chantilly” ” De qualquer modo, convenhamos que 1,21 milhões de euros de “chantilly” é um exagero, mesmo para uma Câmara em ruptura financeira como a de Lisboa.
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