Domingo, 31 de Agosto de 2008

É intemporal a afinidade da solidão com os cantos. Já Neruda, numa tarde outonal de Paris e sozinho numa "esquina louca", angustiava com o tempo que, "cansado de estar ali com ele", o tinha abandonado. Também ele estava só, também a um canto. O velho baú de latão, da idade da Primeira Guerra mundial, ali permanecia, aconchegado num recanto daquela cave, algures submersa na Rua do Belmonte. Mas era uma solidão paradoxal, acompanhada. Um séquito de poetas, pintores, advogados, sem-abrigo, jornalistas, prostitutas, arquitectos e maltrapilhos despojavam-no todas as semanas. Ávidos, remexiam, desfolhavam ou declamavam os Whitmans, Rimbauds, Álvaros de campos, Sá carneiros, famosos, desconhecidos, clássicos, modernistas, hiper-realistas, de tudo o que havia. Assim era o seu âmago.


Desde então, duas décadas passaram. O baú já não está no canto. Talvez não tenha resistido às marés do tempo, talvez tenha emergido. Mas o seu espírito continua bem vivo. E se alguém assombrou aquela baforeira cave do Café Pinguim, se alguém libertou o espectro que ainda hoje povoa aquele subsolo onde a arte alcança a alma, esse alguém chama-se Joaquim Castro Caldas.

 

 

Ler reportagem completa )

 



FM às 18:02 | link do post | comentar

Joaquim Castro Caldas morreu hoje de madrugada no Hospital de São João, no Porto.

 

O fundador da revista cultural Metro é sepultado terça-feira, no cemitério Prado do Repouso. Segunda-feira, o seu corpo vai para a Igreja de Santa Isabel, em Lisboa, onde será celebrada missa de corpo presente.

 

Regressa depois ao Porto, para um velório, a partir das 21h, na capela mortuária da Igreja do Bonfim. O funeral, antecedido de missa de corpo presente, realiza-se pelas 9h30 de terça-feira no Cemitério do Prado de Repouso, onde será cremado.

 

Nascido em 1956, em Lisboa, Joaquim Castro Caldas veio a fixar-se no Porto onde ficou conhecido por animar, durante sete anos, as sessões de poesia no Pinguim Café. "um dos mais intensos animadores verbais das nossas noites", escreve valter hugo mãe.

 

«Veio parar ao Porto para fazer uma pequena revolução no espectro das tertúlias de poesia», escreveram dele.

 

Foi um dos fundadores da revista Metro, uma publicação gratuita, para divulgação cultural, que existiu nos fins dos anos 80 e início da década de 90.

 

Editou 11 livros de poesia, o último dos quais - Mágoa das Pedras - foi publicado ainda este ano. Sairam ainda "Português Suave", "Berlindes e abafadores", "Convém avisar os ingleses", "Só cá vim ver o Sol", "Colheita da época" e "Há", entre outros.




Fazíamos quilómetros a pé. Éramos magros e belos e sensíveis. Enfrascávamos álcool à medida das nossas ilusões, professávamos uma religião de amor à Arte, às artes todas, mesmo à de viver, mesmo à de dizer. Como todos os religiosos, tínhamos sessões do culto diariamente. Sozinhos e em grupo interagíamos com o ente superior. Havia cerimoniais também: os concertos – como os do Luís Armaestrondo, as exposições – sobretudo na Casa de Serralves – e os filmes do Lumiére e da Sala Bebé. O locais de culto iam variando, dependendo dos dias e dos missais. Um deles era especial. À segunda-feira, depois de emborcados os cafés e os finos, íamos resolutos a pé desde a Boavista a Belmonte (parando por vezes ali no Jardim das Virtudes para revigorar forças e ânimos – o nome do espaço diz tudo). Não havia hora marcada, ou se havia era ignorada, mas era rara a semana em que o grupo de confessos não descia à cave do Pinguim. Não me lembro hoje dos nomes dos evangelistas da poesia que ali celebravam o ritual de dizer poesia. Era-se poesia. Todas as semanas, naquela cave, respirava-se o divino porque se respirava a vida. Reitero que me esqueci do nome dos evangelistas que ali professavam, mas lembro-me que o Papa era Joaquim Castro Caldas. Vénia.

 

Texto escrito para o blogue do Clube dos Pinguins no dia em que se comemorou os 20 anos de poesia naquele espaço. Sem o Joaquim, embora mal o conhecesse, eu hoje não seria quem sou.




abraçar mesmo o mundo

o mesmo que trepar um cedro

solto como destino a pulso

a força dos braços por dentro

 

amar a sério o centro o corpo

sério como o coração e nervo

se abrirem ao tempo incerto

que passa o tempo entretanto

 

querer viver a vida no entanto

sem vivê-la instante a momento

é declarar morto o que está vivo

 

esperar pela morte como o vento

esperar que tudo passe ao lado

sem vivos nos termos sentido

 

Joaquim Castro Caldas


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FM às 12:30 | link do post | comentar

Garzon vai investigar relações de mafiosos com a Madeira. Jardim diz que é uma cabala do Governo.


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FM às 10:55 | link do post | comentar

Ando há dias a ouvir dizer que o papa está contra uma cruz com um sapo, e entretanto confirmei-o em notícias e blogues. Qual será a opinião de Bento XVI sobre dissecação? Quero dizer, ele defende a madeira que está na representação do sapo esquartejado, mas não diz uma palavra sobre o sapo dissecado?

 

Quem quiser dissecar um sapo virtualmente pode fazê-lo aqui. E manualmente - em plástico - compre aqui.


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FM às 10:30 | link do post | comentar

Moradores de Nova Orleans são citados hoje de manhã em todos os jornais americanos, que fizeram reportagens no local no aniversário do Katrina. Embora os moradores não vejam o no furacão como o anterior "preferimos jogar pelo seguro do que arrependermo-nos (better play it safe than sorry), porque sabemos o que isso significa, escreve o NYT, citado pela Slate. Há 17 pontos de fuga na cidade, com autocarros que se deslocam para longe, pois o Centro Federal de Furacões considera o Gustav como "extremamente perigoso". Mais de 50 por cento da população de New Orleans foi evacuada ontem.

 

200 mil evacuados de Cuba.


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FM às 08:49 | link do post | comentar

Sábado, 30 de Agosto de 2008

Fico tão leve...


sinto-me leve
música "Bonde do dom", Marisa Monte

FM às 21:31 | link do post | comentar

A notícia está no Boingboing. Começaram a aparecer uns trabalhos de Banksy em memória de Nova Orleães. Um dos spotters é anthonythurdurken, de cujo flickr saquei esta imagem.



FM às 17:37 | link do post | comentar

A chegada do furacão Gustava está a deixar bem viva a memória do terceiro aniversário da destruição provocada pelo furacão Katrina e a incompetência das autoridades federais e locais dos Estados Unidos. Morreram 1.500 pessoas no Luisiana e nos Estados vizinhos. Na sua passagem pelas Caraíbas, O Gustav já deixou 80 mortos e as imagens que os americanos estavam apenas habituados a ver na televisão, entretanto muito mais reais, voltam a sair do écrãs straight to the heart da América pobre que desconfia da gestão que veio sendo feita nos últimos três anos.  

Bush agiu. Decretou o estado de emergência, desbloqueando as ajudas federais às potenciais vítimas, conta a Lusa. Numa reportagem assinada por TM, e encontrada aqui, conta-se que na "cidade reputada pela sua descontracção, muitos habitantes estão agarrados aos boletins da meteorologia que anunciam que Gustav vai chegar às costas da Luisiana segunda-feira à noite ou terça-feira de manhã, com a força de um furacão".

 

"Isto deixa-me louco, é como reviver a mesma coisa", disse Liese Dettmer, música que se ocupa das reservas num clube. Ela perdeu tudo durante a passagem do Katrina em 2005, e tinha previsto "festejar" este terceiro aniversário recebendo as chaves da sua nova casa na aldeia dos Músicos. Criada por Habitat for Humanity, este conjunto de casas de preços acessível visa permitir aos músicos encontrarem um tecto e restaurar a cultura jazz da cidade.Todavia, dois anos e meio depois de ter assinado os papéis para comprar esta casa, ela tem de esperar até 5 de Setembro para se instalar, tal como outras 28 famílias, na condição de Gustav poupar desta vez Nova Orleães.Liese Dettmer faz parte dos habitantes que só evacuaram a cidade no último momento a 29 de Agosto de 2005. Alugou um carro e fugiu às duas horas da manhã de 28 para casa dos pais no Tennessee, menos de 24 horas antes do Katrina atingir a cidade.O seu apartamento do centro da cidade ficou inundado, com o tecto arrancado pelas rajadas de vento. Perdeu tudo.

 

Hoje as coisas parecem estar diferentes, segundo o relato. Mas a população está inquieta.


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FM às 15:34 | link do post | comentar

As gloriosas primeiras páginas dos jornais americanos com o candidato Barack Obama num épico do "jornalismo gráfico" como lhe chamariam os camaradas espanhóis. O link é, curiosamente, do blogue de José António Giner.

 



FM às 15:27 | link do post | comentar

Naquilo que parece ser uma contradição com a posição oficial da ETA (mas é decerto apenas aparente), o líder independentista basco Arnaldo Otegi saiu esta madrugada da cadeia reclamando trabalho por um "cenário de paz e democracia".


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David Duchovny ingresa en un centro de rehabilitación por su adicción al sexo


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Sexta-feira, 29 de Agosto de 2008

A polémica em torno do colar de Carol Castro, no ensaio da edição de aniversário da Playboy brasileira, chegou ao termo que não se imaginava já. O colar é um terço e, no âmbito do ensaio, a actriz, apenas com seios descobertos, insisto, apenas, fazia uma evocação de Dona Flôr e seus dois maridos, sendo que o ensaio era, na génese, baseado na obra de Jorge Amado (como aqui já escrevi).

 

Segundo se escreve no site da editora da revista, a Abril,

O juiz Oswaldo Henrique Freixinho da 29ª Vara Cível do Rio de Janeiro proibiu a distribuição da revista Playboy de agosto, com Carol Castro na capa. Com a decisão, a Editora Abril foi impedida pelo juiz de mandar paras as bancas novas tiragens da revista que contenham a foto onde a atriz, seminua, segura um terço em uma das mãos, sob pena de multa diária de R$ 1.000. A decisão do juiz foi motivada por uma ação conjunta movida pelo Instituto Juventude Pela Vida, do Rio de Janeiro, e pelo padre goiano Luiz Carlos Lodi da Cruz, que consideraram a foto de Carol Castro um desrespeito com as instituições religiosas.
 

O Esgravatar, defensor do bom gosto e da moral e dos bons costumes, mais depressa os relatados por Jorge Amado do que os relatados por esses dois dissimulados, faz o seu papel de ser do contra e bota a foto da Carol. 

 

 

Clique em cima da foto.

 




Todas neste link. E neste. E ainda neste.

 

Algumas aqui em baixo )


FM às 20:37 | link do post | comentar

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