É intemporal a afinidade da solidão com os cantos. Já Neruda, numa tarde outonal de Paris e sozinho numa "esquina louca", angustiava com o tempo que, "cansado de estar ali com ele", o tinha abandonado. Também ele estava só, também a um canto. O velho baú de latão, da idade da Primeira Guerra mundial, ali permanecia, aconchegado num recanto daquela cave, algures submersa na Rua do Belmonte. Mas era uma solidão paradoxal, acompanhada. Um séquito de poetas, pintores, advogados, sem-abrigo, jornalistas, prostitutas, arquitectos e maltrapilhos despojavam-no todas as semanas. Ávidos, remexiam, desfolhavam ou declamavam os Whitmans, Rimbauds, Álvaros de campos, Sá carneiros, famosos, desconhecidos, clássicos, modernistas, hiper-realistas, de tudo o que havia. Assim era o seu âmago.
Desde então, duas décadas passaram. O baú já não está no canto. Talvez não tenha resistido às marés do tempo, talvez tenha emergido. Mas o seu espírito continua bem vivo. E se alguém assombrou aquela baforeira cave do Café Pinguim, se alguém libertou o espectro que ainda hoje povoa aquele subsolo onde a arte alcança a alma, esse alguém chama-se Joaquim Castro Caldas.


