E perguntava ela: “Você já pensou que a sua mulher pode não gostar de você tenha revistas pornográficas?”
O grau de moralismo bacôco nas perguntas de Tyra Banks aos seus convidados no programa que passou na SIC Gaija no passado domingo rondava-se o cúmulo do ridículo. Tyra Banks é uma espécie de nova Oprah da TV Gaija e os seus programas são um bocadinho mais rasteiros dos que os da que emula e mais próximos, em algumas situações, do Jerry Springer (explorando a androgenia dos convidados ou a sua maneira de vestir, por exemplo).
Anyway, no programa a que assisti, meia-dúzia de minutos, apareceram duas senhoras a queixarem-se que os namorados eram “viciados” em “pornografia”.
Num dos relatos, anotei mentalmente o facto de ele ter um colecção de filmes pornográficos (como quem colecciona filmes de kung fu ou de vampiros) e, no outro, o facto de ele ter uma assinatura num site que lhe permite ver online e ao vivo striptease e de ter um a colecção de revistas “porn” já desde antes do casamento.
É relativo. Primeiro porque estamos a falar de uma sociedade que se vê na obrigação de aceitar o striptease e a sua presença no quotidiano parece normal. Depois porque nunca percebi, ao longo do programa, o conceito de “porn” (será a revista Playboy “porn”?). Por fim, porque coleccionar o “Ranger do Texas” é mais perigoso do que coleccionar os filmes da Jenna Jameson, digo eu mas também nunca vi nenhum filme da ex-heroína do estilo pornográfico.
Mas para Tyra Banks, que parecia mais velha, mais conservadora e mais black mother do que a própria Oprah para os seus cachorrinhos, a própria ideia da existência de um site onde mulheres se despiam era impensável (mesmo no país onde há mais bares de striptease por metro quadrado).
E um das coisas que mais me irritou foi perceber naquele moralismo uma construção que contradiz outros dados da personalidade da apresentadora, mais aberta, com menos necessidade de ser aquilo que os espectadores querem que ela seja.
O que me irritou mesmo foi o falso moralismo de perguntar sobre as revistas. Repito, eu não sei qual o conceito de “porn” ali aplicado, mas haverá assim tanta diferença em fazer striptease e fazer isto, isto e isto? É o biquini que faz a diferença? Não acho mal que a Tyra Banks tenha conseguido subir na carreira graças aos ensaios da Sports Ilustrated Swimsuit e da GQ, pelo contrário, contudo, face a tanto moralismo, não sei se entre as revistas do consumidor-pornográfico não se encontrava uma daquelas com a Tyra na capa.

