Um blogue a partir do Porto sobre os media, a música e o mundo
28.8.07
José Saramago escreveu no prefácio de “Madrid 1940” (1993) que Francisco Umbral era um “analista corajoso e frontal”. E duvidando-se do Nobel, um desporto que muitos gostam de praticar, há para o comprovar as crónicas que Umbral escreveu até morrer na última página do El Mundo.

Corajoso e frontal, incisivo e brilhante (dizia o júri do Prémio Cervantes), “impiedoso e implacável”, como o retratou Carlos Vaz Marques, o jornalista que traduziu para português “Mortal e Rosa” (o segundo dos três livros editados pela Campo das Letras, o outro é “E como eram as ligas de Madame Bovary”).

Parecia estar sempre dentro e fora, analisando a realidade que o rodeou, como acontece nesse Mortal e Rosa (1976), o emocional e racional livro à volta da perda de um filho, em que se vê ao espelho: “É como se a vida tivesse querido primeiro um menino achinesado e a seguir um adolescente pálido e depois, mudando de ideias, um homem míope, amargo e duro, porque há uma mão na sombra remodelando a minha cara, moldando a minha expressão, fazendo e apagando esboços sucessivos daquele que fui, daquele que sou, daquele que serei. Por fim, como a morte tem mau gosto, ficará com o meu pior gesto, com o mais estúpido, o mais retorcido e louco e perpetuá-lo-á para sempre, embora isto seja maneira de dizer, porque ao mesmo tempo que te enterram, a vida segue o seu caminho por dentro da morte, e povoas-te de vidas menores, e evoluis até à elegância do esqueleto ou à indagação do lodo, até te tornares um dandy de ossos ou um bicho da terra.”

Míope, amargo e duro, mas com
uma écharpe branca sempre impecável

Umbral era um dandy, desprezava os burros e quem não gostava, e talvez o seu gesto “pior” seja o daquele programa de televisão em que ameaçou ir-se embora se a jornalista não lhe perguntasse nada sobre o seu livro. Era dandy em vários sentidos, decerto diletante como alguns dos seus escritores preferidos, mas dizia que tinha de ser marxista, nem que isso significasse ser comunista.

Um comunista dandy, então.

Míope, amargo e duro, mas com uma écharpe branca, ou um cachecol, sempre impecável.

Foi ainda no El Pais que fez a melhor descrição da movida madrilena dos Anos 80, vista de dentro mas como se ele estivesse de fora. O dandy gostava de malhar, com a sua QWERT da idade da pedra, naquele movimento de famosos, apetitoso para o florescer das revistas, das crónicas, dos jornalistas cor-de-rosa. Aplicou-lhes um livro descritivo chamado “Crónica de esa guapa gente”, expondo-os como o marxista o faria, expondo-se como um dandy.

Sim, foi personagem dos seus livros, mas não seria isso natural? Ele viveu para contar, como escreve o outro, confessando que viveu. Ontem, Carlos Vaz Marques dizia à Lusa ter “ficado "impressionado" quando o escritor lhe disse que não se tinha tornado num assassino porque conseguiu dirigir a sua agressividade para a literatura.” Se calhar por isso escreveu tanto – cerca de uma centena de títulos (nem ele sabia ao certo), entre narrativas e ensaios, e milhares de crónicas de jornal. Se calhar por isso conseguiu descrever, numa Espanha ainda marcada pelo “viva la muerte”, em “Madrid 1940” como o jovem fascista objecto da crónica narrativa fornicava mortas. Narrou-o não como alguém que se poderia tornar num assassino se não fosse a literatura, mas como alguém que acreditava na vida. Mais não fosse, e o seu duro amargar deu-lhe a visão disso, porque “o corpo é uma máquina de viver e torna-se inútil adverti-la continuamente de que a morte não tem importância”.

“Não entendo quanto vivi, uma vez que escrevi tanto. O certo é que vivi, e muito, e está tudo escrito”, disse numa entrevista antes de receber o Cervantes. Meteu a vida nos livros, deu assim uma “dimensão convencional à existência”.

Mas o escritor que viveu nas palavras morreu, e claro que isso é importante, narrável, e é claro que faz “frio lá fora”, apesar de estarmos em Agosto, “que frio lá fora, que desolação de cidades de pedra, de céus caídos, tempos desfeitos, gente vegetal e dias minerais e ruidosos.”

Tivesse conhecido Umbral e lembrava-lhe agora que “ao mesmo tempo que te enterram, a vida segue o seu caminho por dentro da morte”. Dizia-lhe: “Paco, não te digo “descansa em paz”, porque sei que te é impossível.”

Escrito originalmente em O Primeiro de Janeiro, suplemento das Artes das Letras, a 29 de Agosto de 2007
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link do postPor filinto, às 19:35  comentar

José Saramago escreveu no prefácio de “Madrid 1940” (1993) que Francisco Umbral era um “analista corajoso e frontal”. E duvidando-se do Nobel, um desporto que muitos gostam de praticar, há para o comprovar as crónicas que Umbral escreveu até morrer na última página do El Mundo.

Corajoso e frontal, incisivo e brilhante (dizia o júri do Prémio Cervantes), “impiedoso e implacável”, como o retratou Carlos Vaz Marques, o jornalista que traduziu para português “Mortal e Rosa” (o segundo dos três livros editados pela Campo das Letras, o outro é “E como eram as ligas de Madame Bovary”).

Parecia estar sempre dentro e fora, analisando a realidade que o rodeou, como acontece nesse Mortal e Rosa (1976), o emocional e racional livro à volta da perda de um filho, em que se vê ao espelho: “É como se a vida tivesse querido primeiro um menino achinesado e a seguir um adolescente pálido e depois, mudando de ideias, um homem míope, amargo e duro, porque há uma mão na sombra remodelando a minha cara, moldando a minha expressão, fazendo e apagando esboços sucessivos daquele que fui, daquele que sou, daquele que serei. Por fim, como a morte tem mau gosto, ficará com o meu pior gesto, com o mais estúpido, o mais retorcido e louco e perpetuá-lo-á para sempre, embora isto seja maneira de dizer, porque ao mesmo tempo que te enterram, a vida segue o seu caminho por dentro da morte, e povoas-te de vidas menores, e evoluis até à elegância do esqueleto ou à indagação do lodo, até te tornares um dandy de ossos ou um bicho da terra.”

Míope, amargo e duro, mas com
uma écharpe branca sempre impecável

Umbral era um dandy, desprezava os burros e quem não gostava, e talvez o seu gesto “pior” seja o daquele programa de televisão em que ameaçou ir-se embora se a jornalista não lhe perguntasse nada sobre o seu livro. Era dandy em vários sentidos, decerto diletante como alguns dos seus escritores preferidos, mas dizia que tinha de ser marxista, nem que isso significasse ser comunista.

Um comunista dandy, então.

Míope, amargo e duro, mas com uma écharpe branca, ou um cachecol, sempre impecável.

Foi ainda no El Pais que fez a melhor descrição da movida madrilena dos Anos 80, vista de dentro mas como se ele estivesse de fora. O dandy gostava de malhar, com a sua QWERT da idade da pedra, naquele movimento de famosos, apetitoso para o florescer das revistas, das crónicas, dos jornalistas cor-de-rosa. Aplicou-lhes um livro descritivo chamado “Crónica de esa guapa gente”, expondo-os como o marxista o faria, expondo-se como um dandy.

Sim, foi personagem dos seus livros, mas não seria isso natural? Ele viveu para contar, como escreve o outro, confessando que viveu. Ontem, Carlos Vaz Marques dizia à Lusa ter “ficado "impressionado" quando o escritor lhe disse que não se tinha tornado num assassino porque conseguiu dirigir a sua agressividade para a literatura.” Se calhar por isso escreveu tanto – cerca de uma centena de títulos (nem ele sabia ao certo), entre narrativas e ensaios, e milhares de crónicas de jornal. Se calhar por isso conseguiu descrever, numa Espanha ainda marcada pelo “viva la muerte”, em “Madrid 1940” como o jovem fascista objecto da crónica narrativa fornicava mortas. Narrou-o não como alguém que se poderia tornar num assassino se não fosse a literatura, mas como alguém que acreditava na vida. Mais não fosse, e o seu duro amargar deu-lhe a visão disso, porque “o corpo é uma máquina de viver e torna-se inútil adverti-la continuamente de que a morte não tem importância”.

“Não entendo quanto vivi, uma vez que escrevi tanto. O certo é que vivi, e muito, e está tudo escrito”, disse numa entrevista antes de receber o Cervantes. Meteu a vida nos livros, deu assim uma “dimensão convencional à existência”.

Mas o escritor que viveu nas palavras morreu, e claro que isso é importante, narrável, e é claro que faz “frio lá fora”, apesar de estarmos em Agosto, “que frio lá fora, que desolação de cidades de pedra, de céus caídos, tempos desfeitos, gente vegetal e dias minerais e ruidosos.”

Tivesse conhecido Umbral e lembrava-lhe agora que “ao mesmo tempo que te enterram, a vida segue o seu caminho por dentro da morte”. Dizia-lhe: “Paco, não te digo “descansa em paz”, porque sei que te é impossível.”

Escrito originalmente em O Primeiro de Janeiro, suplemento das Artes das Letras, a 29 de Agosto de 2007
link do postPor filinto, às 18:40  comentar

26.8.07
"Quis transformar a sala em algo mais polivalente, menos soturno, mais aberto e mais contemporâneo", explica Nuno Lacerda Lopes, o arquitecto responsável pelo novo Teatro de Carlos Alberto. Este edifício, resultante da reformulação do antigo Auditório Nacional Carlos Alberto, adquirido em 1999 pela Porto 2001, foi desenhado tendo como permissas a contenção de custos, por um lado, e a manutenção do máximo das estruturas anteriores, manter a matriz tipológica.

Fotos de Pedro Tavares

A ideia era manter um "’teatro à italiana’, sem que fosse um normal ‘teatro à italiana’". A partir daqui, o conceito desenvolvido passou pela elaboração de caixas que, não mexendo no essencial da estrutura, pudessem dar-lhe dinâmica, abrir espaços essenciais (administração, bar, WC) com corredores de ligação com o máximo de luz possível, criando na ligação e na relação entre eles "criar elementos de paragem e de surpresa".

Simplificando, pode dizer-se que foi montada uma estrutura TeCA que foi colocada por cima da área total da anterior estrutura ANCA, originando desiquílibrios, nomeadamente verticais, mas que serviram o cumprimento do pedido inicial de contenção de custos e de preservação ao máximo das estruturas que, nas palavras de Nuno Laceda Lopes, "estavam ainda pior do que pensávamos".

E se a sala propriamente dita foi pensada para todo o tipo de espectáculos, "é uma sala aberta à experimentação e com espaço para novas dramaturgias", conforme explica o arquitecto, responsável pelo trabalhos de cenografias em vários teatros nacionais, o mobiliário está de acordo com o conceito do edifício, sendo certo que essa é igualmente uma das variações dos trabalhos de Nuno Lacerda Lopes.

Publicado originalmente no suplemente das Artes das Letras de O Primeiro de Janeiro Segunda-Feira, 22 de Setembro de 2003
link do postPor filinto, às 16:11  comentar

Um tapete rectangular fica no centro do espaço. Criando um vértice, três orientadoras preparam-se para o workshop para pais, crianças e grávidas para demonstrar "possibilidades de interacção musical com bebés", enquanto os participantes se organizam à volta do tapete, recheado de almofadas, lenços e outros objectos que captem a atenção do bebé para aquele centro.

Seguem-se uma série de melodias, cantigas, ritmos e movimentos como que provocando as crianças para a música e para a interacção com os restantes elementos do grupo reunido no tapete: orientadoras, pais e outros bebés.

O resultado é surpreendente: há os que repetem os sons que ouvem, os que se agarram aos pais, os que fogem, os que correm para o centro do tapete, os que, tímidos, observam a vocalizações das orientadoras…

Este workshop que decorreu em várias sessões no sábado de manhã, foi o primeiro de uma série de eventos que marcarão, no Teatro do Campo Alegre, até ao final de Setembro o "Mês do bebé". Ana Paula Almeida, Isabel Maria Gonçalves e Helena Rodrigues, com o apoio dos pais, tentaram, nas suas palavras, "criar um ambiente musical rico e diversificado", utilizando canções e cantos rítmicos em diferentes métricas e tonalidades, de padrões tonais e rítmicos e do movimento de acordo com o estádio de desenvolvimento de cada criança.

As reacções variaram.

Houve os fugiram do centro do tapete, colocando-se numa posição de observação. Outros repetiam insistentemente determinado tom (o "ahh", no caso), uns gritavam correspondendo assim, musicalmente, às provocações das orientadoras. Outros limitaram-se a encostar as costas ao peito dos pais, observando, enquanto dois ou três se aventuravam pelo meio do tapete, brincando com os lenços lá colocados, ou com outros bebés.

Numa primeira fase, os pais limitavam-se a assistir ou a mimetizar os sons, tons e melodias das orientadoras. Mas depois eles próprios tiveram de participar na festa, dançar e cantar, perante o espanto de alguns rebentos.

Helena Rodrigues, professora do Departamento de Ciências Musicais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, era uma das orientadoras. Depois da sessão da manhã de sábado, dedicou parte da tarde a explicar o que se tinha passado e basicamente o que se pode passar em termos de musicalidade entre os pais e os bebés. Ficamos então a saber que qualquer das reacções descritas dos bebés é perfeitamente normal, mas a sessão a que os portuenses tiveram direito serviu apenas para induzir "essa ligação musical entre os pais e bebés", há grupos que se juntam todas as semanas neste sentido, mas aqui houve só uma demonstração. Uma demonstração que a música não tem de corresponder "aquela imagem do jovem de quatro anos em frente ao piano a olhar a pauta", nem que os primeiros professores de música sejam pessoas rigorosas que obrigam a repetir sons e tons e notas.

O primeiro professor de música pode perfeitamente ser o pai ou a mãe, "a música faz parte da nossa matriz biológica", refere Helena Rodrigues.

Publicado originalmente em O Primeiro de Janeiro, Segunda-Feira, 22 de Setembro de 2003
link do postPor filinto, às 15:56  comentar


FIGURA. O concerto dos Clã na primeira noite das Noites Ritual, na passada sexta-feira (23 Agosto), foi a prova que Manuela Azevedo, a vocalista, é um verdadeiro animal de palco, ao nível dos melhores que eu tive oportunidade de conhecer nos concertos que já vi até hoje.

Foto de Ana Luandina.
link do postPor filinto, às 15:40  comentar

20.8.07
Ao reler “O Pintor de Batalhas”, o livro mais pessoal de Perez-Reverte — que me recuso a considerar o melhor, mas se-lo-á –, uma das personagens, através do narrador, diz que o mundo está cheio de imagens, temos imagens a mais, demasiadas imagens para digerir. Ela, que se preparar para ir, por assim dizer, fotografar uma guerra, onde acabará por falecer, ou ele, Perez-Reverte, têm toda a razão. Digo-o agora, que acabou de passar os olhos pelo Público e vejo numa imagem a Mia Farrow a tirar fotografias a umas crianças desgraçadas em África, e vejo uma outra de um turista a fotografar outro turista diante das ruínas de Angkor. Agora, que começo a por em ordem as imagens dos dias, as férias, em que reli, com angústia e um reconhecimento de brilhantismo narrativo, “O Pintor das Batalhas”.
link do postPor filinto, às 09:57  comentar

 
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