A ideia de partir é uma das mais antigas. Os primeiros homens, por necessidades alimentares, pela temperatura ou por crença partiam. Muitos animais são nómadas, buscando alimento, calor, frio, água. E o próprio homem, ainda hoje, sente por vezes a pulsão de partir. Ir, caminhar. Esta é a altura de marcar férias aqui no jornal. Com pequenos arranjos (de datas e orçamentais), lá todos conseguem mais ou menos o que querem. Agosto, porque tem de ser, entre Maio/ Julho e Setembro/Outubro que é mais barato, Natal para alguns, Páscoa… O que é a Páscoa? Celebra-se o filme de Mel Gibson? Será curioso perceber, novamente, neste país de queixinhas e ressentimentos, quem vai para fora, lá fora e cá dentro, na época pascal. Estou a imaginar alguns cronistas a escrever mal dos espanhóis que aí vêm desde o seu lap-top numa cabana em Sierra Nevada; outro a mal-dizer os genéricos e preocupado com o buraco do ozono desde o seu retiro em Miami; um terceiro em Londres a queixar-se dos incêndios; outros tantos a escrever sobre "PDMes" desde Vilamoura, depois de um jantar no restaurante de ex-pescadores da Quarteira. Estamos todos na tanga com todos. Por vezes apetece partir. Recebo novas da Holanda, retratos falados da Escandinávia, o novo livro do Saramago (atenção, ele não escreve sobre Portugal, escreve sobre o Ocidente sem dar alternativa…) e o mesmo "parlapié" de que "não se passa nada", "que o povo é estúpido", etc. e é quando dá mais vontade de ficar. Quando se cai no marasmo, diz-se que não se passa nada à nossa volta; quando se crítica os independentistas bascos (que apelaram ao voto em branco e nulo nas eleições de Março, depois de serem ilegalizados) e se escreve um livro sobre o voto em branco (120 mil contabilizados entre nulos e brancos no País Basco) devemos fugir? Talvez seja bom partir para dentro, a descobrir o que pudemos mudar em nós para mudar o que está à nossa volta. Não é "proselitismo da tanga" é estar cansado da "tanga" que fazemos de nós mesmos, esperando que os outros decidam e façam apenas para criticar a decisão e a realização. Não quero seguir esse caminho.
[Pontos nos ii de
"O Primeiro de Janeiro" de hoje]