Um blogue a partir do Porto sobre os media, a música e o mundo
11.10.08

Não sei muito bem porque casei. Porque sim, porque um pai ia gostar e uma mãe ia ficar exultante, e a outra mãe iria ficar feliz e o outro pai ia ficar quase indiferente ("se é isso que queres!"). Não sei muito bem porque casei, a instituição casamento não me diz muito, é um contrato entre dois que possivelmente dará cabo da vida a uma série de pessoas, nomeadamente às que estão mais próximas, às que ainda não nasceram e às duas que decidiram casar. Não estou a falar da convivência a dois, estou a falar de "casamento". Acho desnecessário. Será bonito, sim, (provavelmente não teria lua-de-mel sem casamento), mas ainda hoje me parece desnecessário. Não sou contra, nem sou pró, fico feliz quando um amigo se casa (é um sinal que pretende estabelecer aquela convivência como eu o fiz), mas não me diz muito.

 

Mas, agora, imagino um amigo de adolescência que sempre defendeu o casamento. Criado de forma mais ou menos tradicional, só quando chegou à faculdade (mais ou menos quando seguimos caminhos separados) se libertou um pouco da sua educação de casarão com cheiro a mofo e começou a receber melhor outro tipo de formação. Era para ele escandaloso o que eu dizia sobre aborto e eutanásia, por exemplo, e era um pouco incompreensível a minha defesa do amor eterno mas sem casamento. Ao chegar à faculdade, a sua libertação foi a vários níveis. Hoje quer casar-se. Não pode. Pelo menos com quem ama. Eu pude. Ele não pode.

link do postPor filinto, às 09:28  comentar

De jorge c. a 11 de Outubro de 2008 às 11:16
Há várias coisas neste post que acho extraordinárias.
Mas prometo ser breve para não correr o risco de não ser entendido (convenientemente).
É engraçado a forma como uma educação tradicional é tomada como "educação de casarão com cheiro a mofo", o que fará certamente essa a minha educação, e provavelmente a dos meus filhos, sendo eu por isso um retrogrado, um velho e muito provavelmente aos olhos de muitos pouco esclarecido.
Não deixa também de ser engraçado a forma como a "libertação" implica tornar-se homossexual. "Dantes eu era um rapaz tradicional - um betinho - depoisdescobri o amor homossexual e libertei-me desse monstro".
Os raciocínios neste post estão ao melhor nível da discussão que para aí houve sobre um instituto que se desconhece, mas que se quer abraçar para se ser reconhecido. É claro que este exemplo de um rapaz de famílias tradicionais vem mesmo a calhar, o rapaz que quer casar porque assim entende a vida: nascer, crescer, casar, morrer. Acontece que este seguimento contém um erro, um erro de direito, que é aquilo que estamos a discutir e não a relação humana ou a felicidade de pessoas latu senso.

De filinto a 11 de Outubro de 2008 às 14:25
Nada do que digas escapa à óbvia contradição de eu me poder casar sem fazer nenhuma questão disso e de alguém que gosta de outra pessoa do mesmo sexo não se poder casar embora a instituição casamento lhe diga muito.

De jorge c. a 12 de Outubro de 2008 às 12:19
Ainda bem que concordamos que se trata, portanto, de um capricho e não de um entendimento claro do instituto em causa.
Estou esclarecido.

De filinto a 13 de Outubro de 2008 às 09:24
Se é um capricho acabe-se com ele. Ninguém se casa pelas razões que tu evocas, a lei, o princípio romano e mais não sei quê, casa-se... por capricho. Acabe-se com ele então.

De jorge c. a 13 de Outubro de 2008 às 10:42
Filinto, as pessoas casam-se por tradição. O problema dos homossexuais é que lhes falta esse elemento, estarem incluídos, para serem reconhecidos. Querer casar não é uma questão de igualdade mas sim de reconhecimento para um grupo de pessoas que até pela Igreja querem casar. O que eu evoco são motivos lógicos para a existência de um instituto e não uma vontade que não joga com a essência de um instituto jurídico.
Podemos sempre dizer que quem mata um pedófilo é para fazer justiça. Se o sentido da lei não te diz nada, lamento dizer-te que estás deslocado do fundamento de uma sociedade organizada.

De cjt a 15 de Outubro de 2008 às 22:24
Jorge: a tradição é que cheira a mofo. Como já disse por aí, este assunto nem sequer é fracturante, trata-se tão somente de um direito básico de reconhecimento de uma união de livre e espontânea vontade entre duas pessoas, como tu e como eu.
A integração dos homossexuais é necessária? O que queres dizer com isso?
A integração dos homossexuais existe ao nível dos direitos básicos dos cidadãos em sociedade. Simplesmente não existe no que tu decerto consideras a célula base dessa mesma sociedade, a família.
Porque uma família não tem que ser composta por mais de duas pessoas, não tem que reproduzir, não tem que ter sexo hetero.
Tem, isso sim, que assumir um compromisso conjunto nos direitos e deveres para com a sociedade. É para isso que existe o casamento.
Para isso e para outra coisa, ainda a cheirar mais a mofo: para "legalizar" o sexo. Daí que nas religiões carbónicas se fale do direito a anulação por "não consumação do acto". Se assim é, estou convencido que os homossexuais estarão para o sexo como qualquer outra pessoa...

Começo a pensar que quem está relativamente deslocado do fundamento de uma sociedade organizada és tu, pelo menos daquilo que eu considero ser uma organização da sociedade.

Abraço,
CJT

De jorge c. a 16 de Outubro de 2008 às 13:20
CJT,
lamento que haja tantas falácias na tua resposta. Em primeiro lugar não podes depreender das minhas palavras coisas que eu não disse, nem tirar segundos significados e conclusões que não estão lá. A minha análise está feita com uma base sólida, ao contrário da do Filinto e da tua que estão carregadas de emoção pateta e sensibilidade lírica. Nada contra, mas o mundo em sociedade assenta em organização e não em emoção (não digo absolutamente, longe de mim, também sou um rapaz levado pela emoção, mas julgo que compreendes o que quis dizer).
A tradição não cheira a mofo porque a tradição é o que é: uma passagem, uma transmissão de valores que se vai alterando com o tempo porque não é feita da mesma forma. Isso do cheirar a mofo é uma mania ou complexo de culpa qualquer que a esquerda de vanguarda tem para se armar. Não tem fundamento, sequer. A mofo cheiram os naprons da minha avó, outros ornamentos arranjarei para pôr na minha casa.

Em segundo lugar, o casamento não legaliza nem o sexo, nem incide sobre o amor. Isso é um erro teu - teu e do Filinto. Os afectos não têm uma lei por base. O que tu entendes por família eu entendo por relações humanas, comuns - namoros, amizades, fodas, amor familiar e por aí fora. Nada disto é legislável. Legislável são as relações jurídicas feitas com um certo fundamento e com uma base sólida, no sentido de organizar e estruturar a sociedade.
O conceito de família surgiu antes sequer da existência do Estado, como nós o conhecemos hoje. Mas para isso o melhor é ler sobre o assunto, que foi o que eu fiz (obrigado no início, porque é a minha formação). Por mais que eu te diga que a Humanidade assenta no dualismo homem/mulher tu poderás não acreditar em mim e a nossa conversa deixa de fazer sentido porque o direito baseia-se nisso para criar um instituto chamado casamento, onde a constituição de família nestes moldes ficava protegida e devidamente regulada. O homem achou que este era o modelo mais aconselhável para uma evolução sólida da sociedade. Não é a família que é criada pelo direito, é a família que cria o direito. É aqui neste ponto que nos dividimos. Porque eu acho que se há uma nova família a surgir, com o homem novo socialista tão querido por Karl Marx, então ela deve ser protegida, sim. Mas a protecção deve ser diferente porque o género é diferente, e o que levou à criação do direito sobre o conceito de família tradicional foi outra coisa - a capacidade de criar a prole para a preservação da espécie.

Acredito que aches (e agora sou eu a interpretar as tuas palavras, se me permites) que a sociedade é toda igual. Pois eu acho que não é. E por achar que há diferenças é que acho que elas devem ser bem equacionadas e não dar igualdade ilimitada. Isso seria irresponsável.
Quanto à igualdade de sermos todos iguais, isso é outra conversa. Não há direito que me diga se tenho ou não de gostar destas pessoas. Não sou activista por nada a não ser pelos meus amigos, as pessoas de quem gosto insdiscriminadamente.

Um abraço,

Jorge

De cjt a 16 de Outubro de 2008 às 15:27
Jorge: a família terá criado o direito, se assim o quiseres e se o disserem os canhanhos a consultar. Sinceramente, nada disso me diz muito, os tempos são outros.
No entanto, há algo que quero desde já salvaguardar:
Sou da opinião de que a lei deve ser moldada pela sociedade e, como tu, não considero sequer por um momento que existam matérias como as relações humanas a serem reguladas seja pelo que for.

É essa, aliás, a base de toda a minha argumentação.
Se refiro o casamento e os seus laivos religiosos, é porque a tua argumentação o exige, uma vez que declaras que a integração dos homossexuais é necessária.
Se falamos da integração de homossexuais e achamos que as condicionantes legais não devem existir no que se refere a afectos e outras relações humanas, então, legisle-se em favor do casamento homossexual. Eu acho simples. Mas tu concerteza arranjarás um silogismo à medida.

Esta discussão, embora com alguma pretensa base legal e sociológica, parece-me muito mais uma discussão de fé.
De um lado, eu, que advogo a coisa mais simples do mundo, um direito fundamental de ser humano.
De outro lado, tu, que não admites esse tipo de discussão, baseado em preceitos legais históricos e a convicção de que toda a restante sociedade estagnou desde a revolução bolchevique.

A Humanidade, meu caro, esteve assente no dualismo Homem-Mulher. E isso prevaleceu enquanto as técnicas de reprodução assistida por um lado, e a sobrepopulação pelo outro não deram conta do recado, aliadas às difíceis conjunturas em que vivemos.
E a Humanidade, também ela, já não é o que era no tempo em que a família que referes definiu a lei e a sociedade. A continuação da prole nunca esteve tão em crise como hoje. A da prole por existir e a da prole existente.

De resto, tudo isto que escrevi acima trata-se (quase) de simples argumentação retórica à retórica argumentada, um daqueles exercícios vácuos de escrita que, com tantas palavras, quer dizer uma coisa muito simples:
A Humanidade não deve ser privada da busca da felicidade.

As leis podem ser mudadas. As instutuições que regiam estão caducas e não há conservadorismo que possa travar isso.
Quanto mais tarde se modificarem as leis, mais repercussões irão existir na sociedade que, desgastada pelos debates inúteis, opta por se alhear dela própria e acabar, como tu, activista apenas em terreno próprio.

Para acabar, não, não acho que sejamos todos iguais. Nem acho que vamos algum dia sê-lo. O que acho é que o deveríamos ser pelo menos perante a lei.
Afinal, a lei, mais que proteger tradições, deveria proteger a igualdade e a liberdade.
Mas isso sou eu, que devo ser de esquerda, não? ;-)

Abraço,
CJT

De jorge c. a 17 de Outubro de 2008 às 10:13
CJT, a Humanidade baseia-se no dualismo homem/mulher ponto. Não há dúvidas disso nem com toda a ciência que queiras imprimir na questão.
Para mim não é uma discussão religiosa é uma discussão de organização social e de compreender que a lei é moldada à imagem da sociedade e não do indivíduo. O que tu defendes é que o indivíduo está primeiro que a sociedade (eu não defendo o contrário, mas também não defendo isso) que foi o que conduziu o grande Lenine. Mas como diz o poeta no man is an island. É com este princípio básico que a sociedade evoluiu "you are not alone".
A verdade é que te mostras muito mais contra o instituto do que propriamente a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo. E enquanto não houver honestidade a tratar este assunto os argumentos vão sempre ser os mesmos: "isto é uma questão religiosa e vocês são uns broncos". Para mim a conversa pára, obviamente, aqui.

Um abraço,

Jorge.

De filinto a 16 de Outubro de 2008 às 21:43
Olha o meu lirismo:
"Não sei muito bem porque casei, a instituição casamento não me diz muito, é um contrato entre dois que possivelmente dará cabo da vida a uma série de pessoas, nomeadamente às que estão mais próximas, às que ainda não nasceram e às duas que decidiram casar."

De jorge c. a 17 de Outubro de 2008 às 10:14
"de alguém que gosta de outra pessoa do mesmo sexo não se poder casar embora a instituição casamento lhe diga muito."
Isto é o quê?

De filinto a 17 de Outubro de 2008 às 13:31
Razão?

 
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