De regresso ao Porto – tendo conseguido já controlar a parte do meu cérebro que me lembrava, com impropérios, que deveríamos ter ido a Bilbau comemorar os dez anos do Guggenheim – pensei qual seria o país que se pode dar ao luxo de ter, separado por, pelo menos, seis faixas de estradas e caminhos-de-ferro monumentos nacionais de tanta qualidade e significado como aqueles? Como era possível que a curta distância que separa o Palácio da Torre de Belém e o CCB do Padrão dos Descobrimentos fosse praticamente impossível de percorrer a pé? Em que país haveria um desperdício assim de história e património? Não me consegui lembrar de nenhum, pelo menos de nenhum dos países que representam a Europa na Cimeira EU/África que decorreu no final de semana. Como Lisboa pretende ser a última fronteira de África e a primeira da Europa pode ser que o seu lugar – no todo do país que é Portugal – seja mais de capital africana do que europeia. E Portugal não tem a pobreza ou a geografia africana que obrigarão a concentrar muita coisa na capital. O que se passa em Belém é demonstrativo de um país terceiro-mundista, que não sabe o valor do seu património! E se este é o tratamento dado ao património que fica em Lisboa, numa zona nobre e turística de Lisboa – perto dos concentrados serviços centrais de património e cultura –, imagine-se o valor que dará a capital ao património espalhado pelo país!
Esta memória serve apenas para recordar que na semana passada estiveram em Santa Maria da Feira nomes tão importantes da cultura mundial (ou global) como Tahar Ben Jelloun, Paul Rusesabagina ou Bernard Henry-Levi, numa conferência (realizada no âmbito do festival Sete Sóis Sete Luas após a presença de Salman Rushdie em 2006) que foi completamente ignorada pelos meios de comunicação social, e pelo país. Assim como o festival Sons em Trânsito de Aveiro e o Festival Internacional de Cinema Luso-Brasileiro, da Feira, também. Aquela memória ajudou-me a perceber o porquê de estes acontecimentos ficarem esquecidos do público em geral, dos media: não é que os eventos não sejam verdadeiramente importantes, eles simplesmente são longe (de Lisboa, por exemplo). No país das estradas, se não tivermos quatro faixas para chegar a qualquer lado, não vamos lá. E é por isso que quando dizem que Portugal deveria ser a Califórnia da Europa, rio e penso que somos cada vez mais a Florida da Europa: Não temos o Silicon Valley, mas temos de ir de carro para todo o lado.
E o que tem isto a ver com esta página do Artes dedicada à Internet? Tudo, porque eu pensei que a Internet ia mudar este estado de coisas e, afinal, depois de democratizado o seu uso, parece que não vai melhorar nada. Como este é o país das estradas e o país que está em crise mas que gasta dinheiro, temos as auto-estradas da informação para simplesmente poder passear nelas e não para chegar à informação.
