Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007

Ainda há janela de oportunidades?

No fim-de-semana do 5 de Outubro, parte das férias que sobraram do Verão permitiram ir à capital. O objectivo era conhecer Sintra mas neste "país em crise" foi impossível encontrar naquela zona turística ao lado de Lisboa qualquer hotel com vagas, assim como na capital, como em grande parte do Algarve – a solução foi descoberta num hotel renovado junto ao Tejo, perto da ponte 25 de Abril, ainda pouco divulgado nas agências de viagem. O objectivo não foi alcançado, ficou muito por ver na (chamemos-lhe assim) vila do Romântico, tal foi o apelo da oferta cultural da zona ribeirinha da capital. De facto, Lisboa não dá qualquer hipótese de concorrência a qualquer outro ponto do país – para não dizer ao país no seu conjunto – em termos de património e oferta cultural, e o Palácio da Pena e o passeio pela Mata de Sintra ficaram para uma outra oportunidade. O "conselho de família" aprovou, então, por unanimidade, que a manhã de domingo seria dedicada à zona de Belém. Habituado a visitas às grandes cidades europeias, o "conselho de família" debruçou-se sobre o mapa turístico da cidade e analisou o insubstituível guia American Express e decidiu que iria fazer um passeio-caminhada entre os Jerónimos e o Museu da Marinha, vindo do Palácio de Belém, residência do Presidente Cavaco Silva, e indo até ao CCB – que chegou a ser chamado Centro Comercial de Belém em tempos, após a sua inauguração pelo primeiro-ministro Cavaco Silva, quando ainda não tinha havido o "take over" de Berardo. (Depois seguíamos a zona do rio, Torre de Belém e Padrão dos Descobrimentos). Postos a caminho, logo percebemos que, afinal, não daria para fazer na maravilhosa metrópole do pequeno país que é Portugal o que estávamos habituados nas grandes cidades europeias: Caminhar entre monumentos atractivos, apreciando de permeio o resto da cidade que não vem nos roteiros é algo impensável para Lisboa. É que entre uma parte e outra do roteiro delineado pelo "conselho de família" há nada menos do que seis faixas de rodagem para automóveis e duas para comboio. Lá pegamos no carro, depois da primeira parte do percurso, descemos até Algés, ou Dafundo, ou lá como se chama a rotunda que depois nos permitiu subir de novo, já junto ao rio, e chegar aos acessos à Torre de Belém e ao Padrão dos Descobrimentos. A família gostou. Perdeu mais tempo do que estava à espera (entre ir buscar o carro, descer a Algés e encontrar local para estacionar) e Sintra ter-nos-á numa outra vez, se houver então camas vagas.

De regresso ao Porto – tendo conseguido já controlar a parte do meu cérebro que me lembrava, com impropérios, que deveríamos ter ido a Bilbau comemorar os dez anos do Guggenheim – pensei qual seria o país que se pode dar ao luxo de ter, separado por, pelo menos, seis faixas de estradas e caminhos-de-ferro monumentos nacionais de tanta qualidade e significado como aqueles? Como era possível que a curta distância que separa o Palácio da Torre de Belém e o CCB do Padrão dos Descobrimentos fosse praticamente impossível de percorrer a pé? Em que país haveria um desperdício assim de história e património? Não me consegui lembrar de nenhum, pelo menos de nenhum dos países que representam a Europa na Cimeira EU/África que decorreu no final de semana. Como Lisboa pretende ser a última fronteira de África e a primeira da Europa pode ser que o seu lugar – no todo do país que é Portugal – seja mais de capital africana do que europeia. E Portugal não tem a pobreza ou a geografia africana que obrigarão a concentrar muita coisa na capital. O que se passa em Belém é demonstrativo de um país terceiro-mundista, que não sabe o valor do seu património! E se este é o tratamento dado ao património que fica em Lisboa, numa zona nobre e turística de Lisboa – perto dos concentrados serviços centrais de património e cultura –, imagine-se o valor que dará a capital ao património espalhado pelo país!

Esta memória serve apenas para recordar que na semana passada estiveram em Santa Maria da Feira nomes tão importantes da cultura mundial (ou global) como Tahar Ben Jelloun, Paul Rusesabagina ou Bernard Henry-Levi, numa conferência (realizada no âmbito do festival Sete Sóis Sete Luas após a presença de Salman Rushdie em 2006) que foi completamente ignorada pelos meios de comunicação social, e pelo país. Assim como o festival Sons em Trânsito de Aveiro e o Festival Internacional de Cinema Luso-Brasileiro, da Feira, também. Aquela memória ajudou-me a perceber o porquê de estes acontecimentos ficarem esquecidos do público em geral, dos media: não é que os eventos não sejam verdadeiramente importantes, eles simplesmente são longe (de Lisboa, por exemplo). No país das estradas, se não tivermos quatro faixas para chegar a qualquer lado, não vamos lá. E é por isso que quando dizem que Portugal deveria ser a Califórnia da Europa, rio e penso que somos cada vez mais a Florida da Europa: Não temos o Silicon Valley, mas temos de ir de carro para todo o lado.

E o que tem isto a ver com esta página do Artes dedicada à Internet? Tudo, porque eu pensei que a Internet ia mudar este estado de coisas e, afinal, depois de democratizado o seu uso, parece que não vai melhorar nada. Como este é o país das estradas e o país que está em crise mas que gasta dinheiro, temos as auto-estradas da informação para simplesmente poder passear nelas e não para chegar à informação.
Publicado hoje, 10 de Dezembro de 2007, em O Primeiro de Janeiro.

Terça-feira, 28 de Agosto de 2007

Confessou que viveu

José Saramago escreveu no prefácio de “Madrid 1940” (1993) que Francisco Umbral era um “analista corajoso e frontal”. E duvidando-se do Nobel, um desporto que muitos gostam de praticar, há para o comprovar as crónicas que Umbral escreveu até morrer na última página do El Mundo.

Corajoso e frontal, incisivo e brilhante (dizia o júri do Prémio Cervantes), “impiedoso e implacável”, como o retratou Carlos Vaz Marques, o jornalista que traduziu para português “Mortal e Rosa” (o segundo dos três livros editados pela Campo das Letras, o outro é “E como eram as ligas de Madame Bovary”).

Parecia estar sempre dentro e fora, analisando a realidade que o rodeou, como acontece nesse Mortal e Rosa (1976), o emocional e racional livro à volta da perda de um filho, em que se vê ao espelho: “É como se a vida tivesse querido primeiro um menino achinesado e a seguir um adolescente pálido e depois, mudando de ideias, um homem míope, amargo e duro, porque há uma mão na sombra remodelando a minha cara, moldando a minha expressão, fazendo e apagando esboços sucessivos daquele que fui, daquele que sou, daquele que serei. Por fim, como a morte tem mau gosto, ficará com o meu pior gesto, com o mais estúpido, o mais retorcido e louco e perpetuá-lo-á para sempre, embora isto seja maneira de dizer, porque ao mesmo tempo que te enterram, a vida segue o seu caminho por dentro da morte, e povoas-te de vidas menores, e evoluis até à elegância do esqueleto ou à indagação do lodo, até te tornares um dandy de ossos ou um bicho da terra.”

Míope, amargo e duro, mas com
uma écharpe branca sempre impecável

Umbral era um dandy, desprezava os burros e quem não gostava, e talvez o seu gesto “pior” seja o daquele programa de televisão em que ameaçou ir-se embora se a jornalista não lhe perguntasse nada sobre o seu livro. Era dandy em vários sentidos, decerto diletante como alguns dos seus escritores preferidos, mas dizia que tinha de ser marxista, nem que isso significasse ser comunista.

Um comunista dandy, então.

Míope, amargo e duro, mas com uma écharpe branca, ou um cachecol, sempre impecável.

Foi ainda no El Pais que fez a melhor descrição da movida madrilena dos Anos 80, vista de dentro mas como se ele estivesse de fora. O dandy gostava de malhar, com a sua QWERT da idade da pedra, naquele movimento de famosos, apetitoso para o florescer das revistas, das crónicas, dos jornalistas cor-de-rosa. Aplicou-lhes um livro descritivo chamado “Crónica de esa guapa gente”, expondo-os como o marxista o faria, expondo-se como um dandy.

Sim, foi personagem dos seus livros, mas não seria isso natural? Ele viveu para contar, como escreve o outro, confessando que viveu. Ontem, Carlos Vaz Marques dizia à Lusa ter “ficado "impressionado" quando o escritor lhe disse que não se tinha tornado num assassino porque conseguiu dirigir a sua agressividade para a literatura.” Se calhar por isso escreveu tanto – cerca de uma centena de títulos (nem ele sabia ao certo), entre narrativas e ensaios, e milhares de crónicas de jornal. Se calhar por isso conseguiu descrever, numa Espanha ainda marcada pelo “viva la muerte”, em “Madrid 1940” como o jovem fascista objecto da crónica narrativa fornicava mortas. Narrou-o não como alguém que se poderia tornar num assassino se não fosse a literatura, mas como alguém que acreditava na vida. Mais não fosse, e o seu duro amargar deu-lhe a visão disso, porque “o corpo é uma máquina de viver e torna-se inútil adverti-la continuamente de que a morte não tem importância”.

“Não entendo quanto vivi, uma vez que escrevi tanto. O certo é que vivi, e muito, e está tudo escrito”, disse numa entrevista antes de receber o Cervantes. Meteu a vida nos livros, deu assim uma “dimensão convencional à existência”.

Mas o escritor que viveu nas palavras morreu, e claro que isso é importante, narrável, e é claro que faz “frio lá fora”, apesar de estarmos em Agosto, “que frio lá fora, que desolação de cidades de pedra, de céus caídos, tempos desfeitos, gente vegetal e dias minerais e ruidosos.”

Tivesse conhecido Umbral e lembrava-lhe agora que “ao mesmo tempo que te enterram, a vida segue o seu caminho por dentro da morte”. Dizia-lhe: “Paco, não te digo “descansa em paz”, porque sei que te é impossível.”

Escrito originalmente em O Primeiro de Janeiro, suplemento das Artes das Letras, a 29 de Agosto de 2007